Outro dia, aconteceu novamente comigo. Meu pai me ligou, era exatamente o dia do aniversário de 81 anos dele, e me perguntou: “Carolzinha, você mudou o número do seu celular?” Eu não tinha mudado de número e era, novamente, uma tentativa de golpe. Era alguém que pegou minha foto, meu nome, meus contatos do WhatsApp e começou a conversar para pedir dinheiro, um roteiro clássico dos golpes financeiros. Isso já aconteceu com você?
🔎 Resposta rápida
Golpes financeiros são fraudes que usam gatilhos emocionais, como medo, urgência, afeto, ganância, autoridade e solidariedade, para levar alguém a transferir dinheiro, pagar uma cobrança falsa ou entregar dados e senhas antes de pensar. Por isso, a proteção mais eficaz combina recursos de segurança com comportamento: quanto maior a urgência de um pedido para movimentar dinheiro, maior deve ser a pausa. Além disso, vale confirmar toda solicitação por um canal oficial ou por um contato que você já conhece.
Imagine, por exemplo, receber uma mensagem de seu filho dizendo que trocou de número e precisa fazer um pagamento urgente. Ou uma ligação de alguém que sabe seu nome, CPF, endereço e até informações de sua família. Pode ser também uma mensagem informando uma dívida, um problema com a conta bancária ou uma oportunidade imperdível que precisa ser aproveitada naquele instante.
Qual seria a sua reação?
Confesso que, quanto mais estudo comportamento financeiro, mais percebo que precisamos aprender a fazer uma coisa aparentemente muito simples e, ao mesmo tempo, muito difícil:
PARAR para pensar antes de agir.

Por que os golpes financeiros estão cada vez mais sofisticados?
Os golpes financeiros estão cada vez mais sofisticados. Afinal, não chegam necessariamente com erros grosseiros de português ou histórias mirabolantes. Além disso, agora, com a ajuda da IA, ficou mais fácil usar informações verdadeiras, imagens de instituições conhecidas, nomes, voz, imagem de familiares, perfis falsos muito bem construídos e mensagens que parecem absolutamente reais.
É assustador, mas acredito que podemos olhar para esse cenário por outro ângulo:
Ele é mais uma evidência da urgência de educarmos comportamentos financeiros dentro de casa.
Quais gatilhos comportamentais os golpes financeiros exploram?
Não basta saber fazer Pix, usar aplicativos bancários, criar senhas ou conhecer investimentos. Em outras palavras, precisamos aprender a decidir. Quando falamos em golpes financeiros, é fundamental observarmos os “gatilhos comportamentais” que os golpistas geralmente usam.
Medo: “Seu CPF será bloqueado.”
Urgência: “Você precisa pagar agora.”
Afeto: “Pai, meu celular quebrou, estou usando outro número e preciso muito da sua ajuda.”
Ganância: “Você ganhou um prêmio.”
Autoridade: “Estamos falando da central de segurança do seu banco.”
Solidariedade: “Precisamos dessa transferência para uma emergência.”
Percebe? Ou seja, antes de atacar o dinheiro, muitos golpistas atacam nossa capacidade de decidir com calma. Dessa forma, eles tentam bloquear nosso raciocínio e usar a emoção para nos fazer AGIR AGORA.
Em resumo: nos golpes financeiros, o primeiro alvo é a capacidade de decidir com calma, e o dinheiro vem logo depois.
Educação Financeira Comportamental: por que saber não basta
Isso é, sem dúvida, Educação Financeira Comportamental na prática. De fato, ao longo desses anos trabalhando com finanças, aprendi que as pessoas normalmente sabem muito mais do que conseguem colocar em prática. Sabem, por exemplo, que:
precisam comparar preços;
gastar menos do que geram;
guardar dinheiro;
colocar o dinheiro para trabalhar;
planejar o futuro…
Mas decisões financeiras não acontecem apenas no campo racional.
O que é Educação Financeira Comportamental?
É a abordagem que desenvolve a capacidade de decidir bem com o dinheiro, pois considera que emoções, hábitos e contexto pesam tanto quanto o conhecimento técnico em cada escolha financeira.
Afinal, somos influenciados por medo, ansiedade, desejo, pressão social, sensação de urgência e confiança. Aliás, os estudiosos das ciências comportamentais, as equipes de comunicação e marketing e, infelizmente, os criminosos sabem disso.
Por isso, preparar a família contra golpes financeiros não é apenas instalar recursos de segurança no celular. É, sobretudo, criar comportamentos de segurança, desenvolver o hábito de parar por alguns minutos antes de tomar uma decisão.
O que os golpes financeiros realmente levam?
O dinheiro que usamos no dia a dia geralmente representa:
horas de trabalho;
conhecimento acumulado;
deslocamentos;
tempo longe das pessoas queridas;
projetos realizados;
riscos assumidos;
escolhas feitas.
Em síntese, leva tempo e esforço para ser conquistado; afinal, ele não é apenas um número.
Portanto, quando alguém perde R$ 500, R$ 5 mil ou R$ 50 mil em um golpe, ou desperdiça esse dinheiro comprando por impulso, pagando juros desnecessários, jogando comida no lixo, perde um recurso que levou TEMPO DE VIDA para ser gerado.
De fato, estamos suscetíveis a errar e podemos tomar decisões ruins em momentos de cansaço, distração, ansiedade ou excesso de confiança. Ainda assim, não ficamos nos martirizando; gostamos de avaliar o passado, projetar o futuro e desenhar possíveis cenários para ampliar repertórios e possibilidades de escolha.

Como proteger a família dos golpes financeiros no dia a dia?
Em primeiro lugar, crie regras para se proteger dos golpes financeiros, proteger seus familiares e melhorar a qualidade das decisões. Nesse sentido, quanto maior a urgência apresentada por alguém para movimentar dinheiro, maior deve ser a PAUSA.
Perguntem-se, então:
“Comprar ou fazer isso agora me afasta ou me aproxima dos meus objetivos?”
Recebeu uma mensagem dizendo que precisa enviar uma senha, clicar em um link ou fazer um Pix? Pare. Em seguida, ligue para o número da pessoa ou para o número oficial da instituição, fale com alguém próximo para pedir ajuda.
Quanto mais alguém disser “tem que ser agora”, mais eu recomendo: não faça agora. Talvez você perca uma promoção, um investimento, uma viagem. Mas uma oportunidade financeira saudável dificilmente deveria depender de você abrir mão de conferir informações básicas.
Checklist da pausa contra golpes financeiros ✅
Pare: antes de tudo, quanto maior a urgência do pedido, maior deve ser a pausa.
Confira: ligue para o número que você já conhece ou para o canal oficial da instituição, mas nunca para o contato que chegou na mensagem.
Proteja: não compartilhe senhas, códigos nem dados pessoais por mensagem ou ligação, mesmo que o pedido pareça legítimo.
Consulte: acima do valor combinado em família, converse com outra pessoa antes que o dinheiro saia da conta.
Pergunte: por fim, “isso me afasta ou me aproxima dos meus objetivos?”

Como conversar em família sobre golpes financeiros?
E aqui, uma sugestão: já que crianças, jovens, adultos e idosos vivem em ambientes digitais, recebem mensagens, acessam jogos, acompanham influenciadores, fazem compras on-line, aproveite para conversar em família sobre essas situações.
Você pode, por exemplo, perguntar:
“Se recebesse uma mensagem minha pedindo dinheiro de outro número, o que faria?”
“Se alguém dissesse que você ganhou um prêmio, mas precisasse pagar uma taxa para recebê-lo, desconfiaria?”
“Se aparecesse um tênis que custa R$ 800 sendo vendido por R$ 99, o que você investigaria antes de comprar?”
“Se seu melhor amigo mandasse uma mensagem urgente pedindo dinheiro, como confirmaria se era realmente ele?”
Faça perguntas. Ouça. Deixe que eles proponham soluções. Uma estratégia poderosa da Educação Financeira Comportamental é desenvolver capacidade de decisão, não apenas entregar respostas prontas e orientações.
Além disso, dependendo da realidade da sua família, estabeleça um valor a partir do qual você consultará outra pessoa antes de uma movimentação inesperada. Isso ajuda, sobretudo, a criar uma barreira adicional contra decisões emocionais.
Decisão no impulso × decisão com pausa
Mensagem de “novo número” de um familiar: no impulso, a pessoa transfere o valor na hora, enquanto, com pausa, liga para o número antigo e confirma com o próprio familiar.
Ameaça de bloqueio do CPF: no impulso, a pessoa clica no link e informa dados, ao passo que, com pausa, acessa o aplicativo ou o canal oficial do banco por conta própria.
Prêmio que exige uma taxa: no impulso, a pessoa paga para “liberar” o prêmio; com pausa, desconfia, já que prêmio legítimo não exige pagamento antecipado.
Oferta muito abaixo do preço: no impulso, a pessoa compra antes que “acabe”, enquanto, com pausa, pesquisa a loja, a reputação e o preço de mercado.
Na escola, o canal oficial também protege: da mesma forma, a regra de conferir pelo canal oficial vale para a relação entre escola e famílias. Assim, quando a instituição define e comunica com clareza por onde envia recados, comunicados e cobranças, as famílias ganham uma referência segura para checar qualquer mensagem suspeita em nome da escola.
De fato, é o que o supersistema de gestão escolar Diário Escola faz na rotina de mais de 1.500 escolas parceiras: conecta escola e famílias e centraliza a comunicação em um só lugar.
💬 pergunta DEia
Na DEia – Diário Escola inteligência aplicada, toda boa decisão começa por uma pergunta. Então, fica a de hoje para a gestão:
As famílias da sua escola sabem, com clareza, qual é o canal oficial para comunicados e cobranças da instituição?
Perguntas frequentes sobre golpes financeiros
O que são golpes financeiros?
Em síntese, golpes financeiros são fraudes que exploram emoções, como medo, urgência, afeto e ganância, para induzir uma pessoa a transferir dinheiro, pagar cobranças falsas ou entregar senhas e dados. Atualmente, nos golpes digitais, muitos criminosos usam inteligência artificial, informações verdadeiras e perfis falsos para tornar as mensagens convincentes.
Como saber se uma mensagem que pede dinheiro é golpe?
Desconfie sempre que a mensagem combinar pressa, número desconhecido e pedido de Pix, senha, código ou clique em link. Assim, antes de agir, confirme a história diretamente com a pessoa ou com a instituição, pelo número ou canal oficial que você já conhece.
O que fazer quando um familiar diz que trocou de número?
Primeiramente, não transfira nenhum valor. Em seguida, ligue para o número antigo ou fale com outra pessoa da família para confirmar. Além disso, uma pergunta que só o familiar saberia responder ajuda a desmascarar o golpista.
Como ensinar crianças, jovens e idosos a se proteger de golpes financeiros?
Acima de tudo, converse com situações práticas, como as perguntas sugeridas neste artigo, e deixe que eles proponham soluções. Dessa maneira, a família desenvolve repertório e capacidade de decisão, em vez de apenas decorar regras.
Existe alguma ferramenta oficial contra fraudes financeiras?
Sim, de acordo com o Banco Central, o BC Protege+ é um serviço gratuito que permite bloquear a abertura de novas contas em seu nome. Para ativar o serviço, basta acessar a área Meu BC com uma conta gov.br de nível prata ou ouro. Ainda assim, nenhuma ferramenta substitui o hábito da pausa antes de movimentar dinheiro.

Repertório: a melhor proteção contra os golpes financeiros
Afinal, nosso papel, como adultos, educadores e famílias, é desenvolver comportamentos que nos deem cada vez mais liberdade de escolha. Por isso, não acredito que a solução seja criar medo; é necessário desenvolver REPERTÓRIO.
Atualmente, estamos vivendo um momento em que movimentar dinheiro se tornou extremamente fácil. Isso é maravilhoso, mas facilidade exige responsabilidade. Um clique pode pagar uma conta, ajudar alguém, investir, comprar uma passagem, realizar um sonho. Por outro lado, um clique também pode abrir um rombo no nosso reservatório financeiro. Não temos como eliminar todos os riscos, mas podemos preparar melhor as pessoas diante dos golpes financeiros.
Enfim, quanto melhor aprendermos a cuidar do fluxo de dinheiro, maiores serão as possibilidades de usá-lo para atender necessidades, concretizar desejos, cuidar de pessoas, apoiar projetos, investir, compartilhar, construir segurança e realizar sonhos.
Carolina Simões Lopes Ligocki
Autora e fundadora da Oficina das Finanças
Em resumo: golpes financeiros atacam primeiro a capacidade de decidir com calma. Por isso, a defesa mais consistente da família combina pausa, conferência pelo canal oficial, regras combinadas em casa e conversas que desenvolvem repertório em todas as idades.
Leia também no blogDE
Dinheiro no lixo: aprender sobre o que valorizamos na vida
O desperdício do dia a dia como outra forma de perder o tempo de vida que o dinheiro representa.
Falar sobre dinheiro: um jeito carinhoso de cuidar do futuro
Como abrir a conversa sobre dinheiro em casa, o primeiro passo para prevenir golpes em família.
Jogos de apostas: como proteger sua liberdade financeira e emocional
Outro ambiente digital em que emoção e urgência empurram decisões financeiras.
O dinheiro e as escolhas diárias: como transformar sua vida financeira
Pequenas decisões repetidas que constroem hábitos e segurança financeira.
O preço de não enxergar o dinheiro
Pix, cartão e assinaturas fizeram o dinheiro sumir das mãos. Veja o efeito cashless e 6 lembretes para enxergar o dinheiro e educar os filhos.



